Zina Entrevista: Ana Luisa Fernandes, designer da ALUF
- Zina Magazine
- 24 de jun. de 2018
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de jun. de 2018

Ana Luisa Fernandes é designer, nasceu em Belém, foi criada no Rio de Janeiro e atualmente vive em São Paulo. Ela cursou moda na FAAP e já participou de eventos como Brasil Eco Fashion Week e o FAAP Moda com sua marca, a ALUF.
A jovem designer já estampou as páginas de revistas como Elle, Bazar e VTRENDS com suas criações. A ALUF é uma marca preocupada com o meio ambiente, que prega que os produtos de moda devem impactar o mínimo possível de forma negativa no planeta. A marca utiliza tecidos naturais, sustentáveis e mais de 90% dos produtos são brasileiros, com o intuito de apoiar a economia do país.

ZINA MAGAZINE: As roupas que você vende possuem uma preocupação ambiental. Você sempre foi uma pessoa ligada em sustentabilidade?
ANA LUISA: Nunca fui radical quanto a isso, quando entrei na faculdade eu tinha algumas preocupações básica relacionadas ao consumo de energia, água e gerenciamento de lixo. Que foram coisas que me foram ensinadas. Mas a consciência é um caminho sem volta, conforme fui vendo o caminho da sustentabilidade na moda, no têxtil, no processo, outros métodos que não fossem de acordo com esses eram contrários a consciência que eu havia tomado. Acho que cada um faz o que está ao seu alcance quanto a isso, o que está ao nosso alcance é passar esse conhecimento através do exemplo do que fazemos. Eu não sou ou era uma pessoa "eco", mas sou uma mulher formada em design que entende que a minha profissão busca trazer o melhor impacto para a sociedade, e para mim o modo de produção sustentável é o caminho para tal. Tira de mim a culpa de estar produzindo mais um objeto, mas sim um conteúdo em forma de objeto, e este objeto tendo uma vida cíclica e sustentável.
ZM: Você se lembra quando essa preocupação começou?
AL: Sim, em uma palestra na FAAP, ainda no terceiro semestre, onde foi abordado o assunto.
ZM: Como você descreveria seu processo criativo? O que te inspira?
AL: Meu processo criativo é muito teórico, quase acadêmico. Preciso ir muito a fundo no tema. Para mim tudo precisa ser muito coerente, tenho essa necessidade de justificativa da minha criação. A Nise da Silveira, seu trabalho, sua história são a minha fonte de inspiração primária.
ZM: Como você conheceu o trabalho de Nise Silveira e por que você se interessou?
AL: Conheci o trabalho da Nise na minha pesquisa de TCC, quando iniciei meus estudos sobre o processo criativo como forma de autoterapia. Me interessei primeiramente pela história dela, sua personalidade, e pelo trabalho que ela fez de comprovar em território nacional a eficácia da arterapia.
ZM: Como você acha que esse trabalho se conecta com você e com a sua maneira de fazer moda?
AL: Ela justifica a minha função e minha necessidade criativa, de forma não banal. Ele me empodera de certa forma. Entender a minha necessidade criativa e a necessidade do próximo de se expressar através da imagem, seja para mim a roupa que crio, o meu processo criativo e para meu cliente a expressão de ser que ele busca através da minha peça, deixa a minha consciência em paz com esse ciclo de moda dito tão fútil pela sociedade.
ZM: Algumas pessoas dizem que é muito difícil fazer moda sustentável e por isso muitos projetos ficam pelo meio do caminho. Você concorda?
AL: Não vejo dessa forma. Acho que em geral empreender não é fácil. Empreender abrindo uma marca que traz produtos com matérias primas de qualidade, não é fácil. Isso estou falando de marcas em geral que vendem produtos de qualidade, ok? Hoje em dia por conta das fast fashions a percepção de valor aceitável de uma roupa pelo grande público mudou.
Um valor justo, que pague uma mão de obra de forma correta, que compre um tecido de qualidade, sofre dificuldades. Para tais marcas serem aceitas no mercado o seu valor agregado tem que ser muito maior, a marca tem que gerar desejo, ter conteúdo, e essa união dos fatores de estrutura de marca e investimento em matéria prima e mão de obra acabam por elevar seu valor final. Na minha percepção o erro de algumas marcas sustentáveis é justamente usar somente a sustentabilidade como posicionamento de marca. O público no Brasil que consome somente por esse critério ainda é restrito, então a chance de você quebrar por se posicionar somente dessa forma é grande. Por isso eu digo que a sustentabilidade na ALUF é uma obrigação, não uma forma de nos vendermos. As pessoas não procuram ou consomem pelo conteúdo estético e intelectual do nosso conceito e da imagem de moda que desenvolvemos, e por isso elas não se importam de pagar o valor justo da peça.
ZM: Quais são os maiores desafios de se fazer moda sustentável e autoral hoje no Brasil?
AL: O desafio de fazer moda sustentável e autoral do Brasil, para mim, ainda é a capacidade de fazermos o público valorizar isso. Por isso temos que educar o público com nosso posicionamento de marca e trabalhar o nosso mix de produtos para que a marca se sustente. Não podemos ter somente marcas autorais, mas podemos sim trabalhar com produtos sustentáveis. Sim, eles ainda têm uma limitação e até mesmo dificuldades técnicas de lavagem. Mas com muita pesquisa e criatividade, podemos resolver essas questões.
Por fim, o problema não é a sustentabilidade, mas sim todas as outras questões que envolvem a construção de uma marca. Comprar tecidos por 3 dólares para gerar lucro não pode ser a única saída possível para a empresa girar... E não é.
ZM: Por que você criou a ALUF? Como você acha que sua marca pode contribuir com o mundo da moda?
AL: Porque é através da ALUF que eu me realizo, que consigo trabalhar as diferentes áreas do conhecimento pelas quais eu me empolgo e emociono. Acredito que o nosso posicionamento e visão trazem o que vem sendo cultivado dentro da academia (faculdades, mestrados, etc) como a nova visão do que é a moda, e ver isso sendo posto em pratica em uma marca ajuda a disseminar todos estes ideais para o público leigo. Seriam eles, a valorização da moda e da matéria prima nacional, a forma de criar e entender a moda de uma maneira mais artística, atemporal e de expressão própria, a sustentabilidade e a forma de posicionamento da marca e de comercialização.

ZM: O que veio primeiro, a vontade de fazer roupas ou a vontade de fazer joias?
AL: Roupa. Sempre pensei roupa, ou tudo que se unisse a imagem do corpo, o acessório foi uma feliz consequência, fiz um semestre de joalheria que fazia parte da minha grade curricular na FAAP.
ZM: E a vontade de trabalhar com cerâmica surgiu como?
AL: Surgiu das minhas pesquisas das formas de arterapia. A modelagem da cerâmica é uma delas, utilizei algumas formas de arteterapia para desenvolver meu tcc, do qual nasceu a ALUF. Modelei não só o barro para fazer brincos e botões, mas o próprio tecido ao fazer a moulage dos looks apresentados.
ZM: Qual foi a maior lição que você aprendeu na faculdade de moda?
AL: Aprendi que o pensamento da moda vai muito além da roupa. Digo que a moda é a profissão do curioso, temos que sentir tudo, prestar atenção em tudo, e ser minimamente bons em tudo para ser design de uma marca autoral. Para ser um criador, mesmo dentro de uma empresa que não seja a sua, você precisa estar sempre atento as questões da sociedade, aos comportamentos, a economia e afins. Para criar estudamos temas gerais, não ligados a moda.
Vi que a moda acaba por ser uma extensão imagética da sociedade de uma época.
ZM: Como foi a experiência de participar do concurso do FAAP MODA?
AL: Acho que se até aquele momento eu tinha alguma dúvida sobre o que eu queria para minha carreira, depois que eu subi no palco após as modelos terem terminado de entrar com as minhas peças, toda e qualquer dúvida chegou ao fim. Tive a certeza que era isso que me realizava imensamente e que quero fazer daqui pra frente.
ZM: O que veio de aprendizado com o concurso?
AL: O FAAP MODA me trouxe a experiência de trabalhar com profissionais do mercado e do que é ter e fazer um desfile. Me deixou mais segura e me levou ao conhecimento de pessoas que me chamaram para projetos muito bacanas.
ZM: Pode destacar algum momento?
AL: O processo todo é muito importante, mas para mim o momento de maior emoção foi o final do desfile e de maior aprendizado um ano depois dele. Pois nem sempre as coisas possuem resultados imediatos, aprendi a não criar expectativas imediatistas e que os frutos podem ser colhidos a longo prazo.
ZM: Você já expôs seu trabalho no showroom do Bureau Seutail em Londres, como foi essa experiência? Como aconteceu?
AL: Foi um tanto quanto inacreditável. Fui convidada pelo showroom, no início não achei que era algo real, mas o feedback que tive ao expor minhas peças, as multimarcas interessadas que vendiam marcas que eu admiro, tudo isso me fez ter uma visão de que o que queremos está muito mais próximo, se você envarar dessa forma... o que precisamos é ter foco e terminação, pude entender como funciona o pensamento europeu para investir em novar marcas e partir daí pude retraçar a estratégia da ALUF para os próximos três anos e tonar viável o meu plano inicial: se minha peça é mais exclusiva, então não posso vender muito para o mesmo local, mas posso vender pontualmente para o mundo inteiro.
Conheça mais sobre o trabalho da Ana Luiza no site da marca ALUF. Lá você pode comprar todas as peças produzidas pela marca e conferir os editoriais de moda também.




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